A memória é a capacidade de adquirir (aquisição), armazenar (consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).
A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas ideias, ajudando a tomar decisões diárias.
Psicólogos distinguem dois tipos de memória declarativa, a memória episódica e a memória semântica. São instâncias da memória episódica as lembranças de acontecimentos específicos. São instâncias da memória semântica as lembranças de aspectos gerais.
Memória, segundo diversos estudiosos, é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao quotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida.
Fonte: Wikipedia
Memórias de um dia fenomenal...
Como se fosse hoje, recordo-me do dia em que o Manuel Batista me mostrou umas fotos da sua última caminhada na companhia da sua mulher, Mira, algures em terras do Douro, tendo como cenário uma abandonada linha férrea.
Senti ao ver aquelas fotos, uma clara sensação magnética, como que em milésimos de segundo tenha decidido querer fazer aquele trajecto sem nada saber do mesmo, obstáculos, dificuldades, nada de nada, fiquei rendido à beleza das imagens e à dimensão do desafio.
E assim nasceu “A Caminhada”, só possível com a liderança do Manuel, devido à sua experiência e conhecimento da referida linha.
Lisboa 2 de Outubro, a meio de uma tarde marcada por alguma confusão de trânsito em direcção a Norte por ocasião do primeiro dos dois concertos dos U2 em Coimbra, deixámos a capital rumo a Barca d'Alva, à nossa espera estavam mais do que colegas do dia-a-dia, amigos que positivamente responderam ao convite feito.
Uma viagem a dois, longa onde o cansaço natural da distância é combatido com palavras, música e a beleza de muitas paisagens ao longo da A23, as condições climatéricas são excelentes para a altura do ano, fazendo prever que nos acompanhará no dia seguinte, dando sem dúvida um maior conforto e segurança para o que nos esperava (estávamos bem enganados), isto do pouco que sabíamos, em resumo, tudo corria sobre rodas.
As mesmas rodas que ao entrar na estrada Nacional nos permite desfrutar bem mais perto, os aromas das terras do Douro, as suas gentes de pele enrugada e sábia, que tranquilamente se senta à porta de casa e observam quem passa, gerem desta forma alguma solidão e o tempo, de um dia que se aproxima da frieza humana de mais uma noite.
A paisagem torna-se mais sóbria, sombras delineadas por montes e vales, bem como de pequenas árvores recentemente plantadas pois as suas antecessoras foram criminosamente destruídas estou certo, e por pedras de dimensão e robustez consideráveis.
Os vales são subtilmente cortados pelo Rio Águeda, que como uma serpente marca a sua passagem.
“Chegada ao destino”... Berra o gps, é tempo de colocar as malas no quarto, um espaço simples, humilde mas mais que suficiente para um descanso que se viria a tornar rápido.
É tempo de recuperar calorias e viver o sabor da amizade, acompanhado de umas belas costeletas para uns e bacalhau para outros, humedecidos ligeiramente diria, pelo vinho da terra nos seus dois tons e claro, cervejola.
Vivemos ao jantar, de uma excelente boa disposição, atirámos uma belas gargalhadas resultado dos cenários diversos idealizados por cada um de como seria o dia seguinte.
A refeição terminou com alguns "ENO's" servidos em cálices, produto da terra, suave que escorregava deliciosamente, a malta de Barca d'Alva denomina-os de bagaço, enfim, pormenores, certo é, que nos fez descontrair e relaxar de mais de 4 horas de viagem e 400 e tal kms feitos.
Hora de dormir, pois o galo cantará às 7h da matina, hora do padeiro e de mais de uma dezena de loucos se equiparem e tomaram o pequeno-almoço.
Em linha...
Pouco passava das 7h40 quando nos fazemos à linha, literalmente.
Primeira imagem marcante é para mim a da Estação Ferroviária de Barca d'Alva, um símbolo de azafama de outrora, abandonada, de edifícios que acolheram certamente milhares de rostos, as mais modernas locomotivas da altura, local estou certo de movimento de pessoas e mercadorias que cruzavam terras do Douro, terras de Portugal e Espanha em busca do seu ganha pão, pelo que li, é esta a história desta linha férrea, deste marco de engenharia entre Barca d'Alva e La Fregeneda, as trocas comerciais.
Numa das linhas da estação, conforme caminhamos, vamos ficando de certa forma "cercados", à direita por duas plataformas gigantescas construídas em Madeira, lindíssimas, madeiras essas agora totalmente escuras, tipo wengé, à esquerda, rompendo o duro chão, uma estrutura metálica em forma de círculo, com o objectivo (digo eu) de encaminhar para cada um dos 3 abrigos existentes no edifício à sua frente as respectivas locomotivas e também, certamente para prestar manutenção.
Aqui começo a gravar as minhas primeiras memórias de um dia simplesmente marcante.
Rapidamente chegámos à primeira ponte, sobre o Rio Águeda que será um dos nossos companheiros de caminhada, rasgando um vale lindíssimo, parte dele por nós trilhado.
Não há dificuldade, a ponte apresenta-se em bom estado, apenas a sua altura perante as águas do Águeda nos fazem pensar duas vezes em olhar para baixo, é tempo das primeiras fotos e também, no final desta ponte, do primeiro dos 20 túneis que vamos passar.
O ambiente entre nós é fantástico, muito boa disposição, brincadeira, diria que é o “caminhar alegres”, por entre uma linha que no início ainda não apresentava uma vegetação densa, mas sim, o normal ónus de 25 anos de abandonado, pedras de razoável porte no centro da linha, resultado de derrocadas provocadas pelo mau tempo e ausência de manutenção, um cenário que iríamos encontrar ao longo de todo o troço, umas vezes mais denso e dominado por silvas.
Bem depressa chegamos à segunda ponte e o primeiro desafio, pois esta já se apresenta deteriorada nos seus dois corredores laterais (locais de passagem pedonal), bem como pelo centro que poderia ser uma boa opção, mas de pontes, pouco mais há a dizer, pois sabíamos previamente que das 13 existentes, 2 eram consideradas pelo Manuel as mais, bem mais complicadas de atravessar, de nível extremo e isto foi um facto.
Foi uma prova bem sucedida, com todos os cuidados superámos esta ponte, apesar das adversidades encontradas.
As restantes 11 eram muito semelhantes, diferente o seu risco é certo, pois umas se pela questão das alturas que tinham do solo causavam calafrios, outras pela considerável extensão, outras também pelos corredores laterais cuja madeira estava ainda bem mais apodrecida e requeria total concentração ao andar e onde colocar os pezinhos, ou, como se não bastasse, os varões existentes, quando existiam, apenas nos permitia obter equilíbrio, mas não um ponto seguro de apoio a que pudéssemos encostar o corpo sequer para descansar (já parece uma linguagem tipo bar de alterne).
As duas pontes mais temidas e que de certa forma inicialmente incomodavam a minha tranquilidade, são as denominadas Puente Arroyo del Lugar e Puente de Pollo Valente, estas são sem dúvida alguma o grande marco de engenharia de todo o trajecto e acima de tudo os maiores sinónimos de perigo extremo.
No topo dos seus 60 metros de altura, com 300 metros de comprimento, surge ao nosso olhar após uma ligeira curva invadida de mato, o primeiro grande desafio no que, ao enfrentar o medo diz respeito.
Ao chegar à ponte e já com ameaça de chuva para além de algum vento que se fazia sentir, constatamos que apenas uma passagem lateral estava disponível, pois a outra tem restos de tábuas que faziam parte do corredor existente, podres ou em pedaços, não sendo de todo aconselhável a sua passagem, no outro lado, a travessia é possível através de um estreito corredor de chapa com cerca de 40cm de largura, já algo molhada e “perfurada” a todo o comprimento por parafusos gigantescos de união à estrutura, conferindo-lhe um relevo de altos e baixos.
Confesso que aqui, antes de iniciar a travessia na companhia da minha mulher, do Manuel e da Mira, respirei bem fundo tendo os metros iniciais sido percorridos com alguma ansiedade. Já tinha testado nesta caminhada na ponte anterior a passagem desta forma, na qual cometi o erro de olhar para o solo, e digo-vos, a sensação de desconforto, insegurança é indescritível e em segundos se apodera de nós parecendo que nos bloqueia de todo, e nesse momento, parei, olhei bem alto, respirei e continuei em frente, superei esse receio.
Não era portanto esta ponte, por mais extensa que fosse, que iria derrubar a minha coragem e diminuir a minha determinação, demorasse 2 minutos ou 2 horas, iria atravessá-la.
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| Puente Arroyo del Lugar |
E assim foi, radiantes, eu e todos os outros, já no fim da ponte, nos reunimos e partilhámos todas as emoções todos os sentimentos pelo corpo e mente accionados antes e durante a travessia da Puente Arroyo del Lugar.
É tempo de tirar (mais) fotos, sente-se a alegria de termos superado tal obstáculo, principalmente todos os que sentiam receio, medo perante tal façanha.
Segue-se um ligeiro mas importante snack, é vital reabastecermos o corpo, pois estávamos quase a chegar a metade dos kms da caminhada, mas as facilidades só mesmo nos últimos 100 metros da mesma, pois após termos superado a Puente Arroyo del Lugar, seguia-se logo a segunda ponte temida, Puente de Pollo Valente.
Esta ponte é de uma construção maravilhosa, curvada, construída a meio de dois cones montanhosos cujos dois extremos da ponte assentam na saída, à face de dois túneis, tendo como pano de fundo uma paisagem simplesmente maravilhosa.
Em termos de travessia é feita de forma bastante semelhante à Puente Arroyo del Lugar, foi no entanto feita com condições climatéricas (cada vez mais) adversas, chuva algo forte e três rajadas de vento consideráveis fizeram-me parar a meio da mesma.
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| Puente de Pollo Valente |
Esta ponte tem a vantagem de se poder transitar pelos dois corredores laterais, optámos no entanto pelo mais “”seguro””, já que num deles, devido à curva existente na própria ponte, a estrutura do corredor exterior tem uma abertura com cerca de 70cm entre os pilares metálicos o que nos obriga a dar uma valente passada.
Após mais uma conquista realizada, respirámos de certa forma de alívio, tínhamos superado diria que os dois principais e mais perigosos obstáculos, juntos, unidos, solidários, transmitimos certamente uma alegria aos nossos incansáveis guias, Manuel e Mira, que tanto apoio e palavras de incentivo nos deram.
Em resumo, somos uns grandes malucos.
Mas nem só de pontes degradadas, muito perigosas foi feita esta caminhada, houve tempo para o Miguel Lopes, o José Viana e o Jorge Marques deixar de forma vincada a sua marca em mais uma cache, não fossem eles fiéis seguidores do Geocaching, cache essa colocada num ponto deslumbrante do nosso trajecto a que poucos Geocachers ainda não tiveram a oportunidade de visitar e assinar, os três ficaram a fazer parte de um grupo bem restrito de presenças nesta cache .
Para além de tudo o que já foi escrito até aqui... Enfrentámos ainda vinte túneis, muitos bem manhosos, cheios de truques no solo, ausência de pedras nos corredores laterais que davam origem a buracos, da extensão enorme de alguns, colocando-nos na mais profunda e perfeita escuridão, de onde apenas irrompiam sons de alerta entre andorinhas num caso e nos restantes de morcegos às dezenas, que faziam os seus voos rasantes sobre as nossas preciosas tolas.
No apelidado pelo Manuel como Túnel dos Morcegos, a meio deste os excrementos de morcego eram em tão grande quantidade que cobriam por completo a linha férrea, fazendo com que não sentíssemos sequer a mais pequena pedra ou pedaço de ferro, apenas merdume, tentámos caminhar o mais depressa possível pois obviamente o cheiro era simplesmente abissal, ficámos deste modo a pensar o quanto mal deve o Batman cheirar.
Como se não bastasse, juntemos umas ossadas perdidas pelo meio da linha, talvez trazida por lobos ou raposas que ali habitam e que bem no escuro devoram as suas presas, deixando apenas os ossitos que ao nos aproximarmos com as nossas lanternas, mais pareciam fraquíssimos neons brancos.
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| Puente de Poyo Rubio |
A caminhada continua em direcção às últimas pontes, aos últimos túneis, deu para tudo, para contemplar a beleza natural, para vermos dois gamos que cruzaram o nosso caminho, de ver uma pequena cobra que rapidamente se escondeu nas pedras da linha, de degustarmos figos bravo, deu inclusive para os Geocachers deixarem a sua marca numa cache, mas acima de tudo, de colocarmos à prova as nossas capacidade físicas e mentais (aqui tenho dúvidas :D).
Fim de linha...
O último túnel tem 1.600 metros em linha recta, é altura de reunirmos, comermos mais um snack e preparar as pernas para o fim desta caminhada que já se aproxima a ponteiros largos das 7 horas realizadas.
Partimos tendo como orientação a luz no fundo do túnel, é sem dúvida uma frase feita, mas este túnel conforme fomos caminhando, dava-nos a sensação de ele próprio estar a acrescentar mais uns metros, interminável mais parecia, fomos no entanto acompanhados uma vez mais por morcegos às dezenas que teimavam em deixar na nossa memória os seus inconfundíveis sons.
Chegámos, no final do túnel encontra-se mais um vestígio de mau tempo, um tronco atravessado na linha como se estivesse a delinear o espaço para perfilarmos para uma derradeira foto de grupo.
Conservado num cartão de memória mais uma imagem, rumámos à Estação de La Fregeneda, em fila, como se um comboio fossemos, um só, unidos, de peito feito não tivéssemos percorrido (e alcançado) mais de 17 km de obstáculos naturais, 20 túneis, 13 pontes, 1 cache, e acima de tudo, alguns de nós percorrido (e derrotado) os nossos receios, medos e posto à prova a nossa coragem e determinação.
Conseguimos! Juntos. Ninguém faz nada sozinho!
À nossa espera estava uma guarda de honra, a Joana, o João, o Joaquim e a Carolina Lopes, acompanhados por um muitíssimo saboroso bolo de chocolate e um licor Beirão, hidratação, nunca esquecer a hidratação.
Reunidos num antigo e em ruínas edifício da estação de La Frenegeda, brindámos a um feito que todos considerámos como magnífico e que, fará para sempre parte das nossas memórias.
13 Amigos
17 Km de linha férrea
7 Horas de caminhada
20 Túneis
13 Pontes
Coragem
Determinação
União
e uma, muito ligeira dose de insanidade...
Eis os (muito loucos) participantes:
- Ana Cristina Viana
- Cristina Baptista Costa
- Fátima Lanternas
- Mira Batista
- Natércia Marques
- Sandra Gouveia
- António Augusto Duarte
- Jorge Marques
- José Viana
- Manuel Batista
- Miguel Lopes
- Paulo Nunes
- Pedro Costa
Manuel e Mira, nunca é demais dizer-vos... MUITO OBRIGADO!
Um agradecimento também muito especial ao Joaquim e Carolina Lopes, Joana e João Batista, pelo precioso apoio e calor humano demonstrado nesta louca aventura.
Deixo-vos ao jeito de dedicatória, uma frase:
"se não tiver a coragem de perder a margem de vista, nunca poderá atravessar o oceano"
(Cristovão Colombo)
Abraço.